QUEM PODE JULGAR A ARTE?

Constantemente recebo mensagem de amigos artistas, que tem dúvidas acerca de seu trabalho, estão em crise criativa ou desanimados com as críticas às suas obras, a estes artistas gostaria de dedicar este texto.
Não sei quem disse ou instituiu que a arte tem que ser avaliada ou criticada, provavelmente isso remonta de séculos, porém eu discordo completamente da maneira como estas avaliações são feitas.
A quem cabe dizer se uma obra é boa ou não? A quem cabe dizer ela vale x ou Y?
Se nos fizermos uma pergunta bem fundamental a nós mesmos, quem sabe possamos encontrar alguma resposta. O que eu quero com a arte? Para que ela me serve?
Costumava participar de salões há muitos anos atrás, mas desisti depois que fui convidada a fazer parte da equipe de seleção para um salão de paisagens. Senti-me um lixo porque na verdade para mim todos deveriam poder participar, pois todos foram feitos com sentimento, criatividade e técnicas que cada um possui. Achei-me completamente incapaz e declinei do convite, principalmente depois de ver que na verdade na maioria das vezes a seleção é feita por escolhas pessoais e normalmente são escolhidas obras de pessoas conhecidas dos avaliadores. Quer dizer na maioria dos casos é marmelada, e muitas vezes, diversos artistas, principalmente aqueles que ainda não tem segurança em seu trabalho, acabam desistindo de pintar.
Com a globalização de um modo geral, a arte se tornou mais acessível ao público, hoje podemos sem sair de casa conhecer trabalhos de artistas de todo o mundo, mas em contrapartida a isso, criou-se uma grande rede comercial em cima do meio artístico, e com ela também do nada surgiram muitos entendidos em arte, curadores e etc.
Diversas galerias hoje sobrevivem desta imensa diversidade de arte espalhada pelo mundo, porém não acredito que o simples fato de alguém ter um espaço para ganhar dinheiro em cima do trabalho dos outros, lhe dá o direito a criticá-los.
O que ocorre é que normalmente um marchand de arte já tem um perfil exato de seu comprador, e neste conceito acaba trazendo ao seu espaço apenas aquilo que lhe é interessante comercialmente, deixando de lado artistas magníficos apenas por que suas obras não são vendáveis ao seu modo de vista é claro.
Existem trabalhos que tem um apelo visual forte, cores quentes enfim, trabalhos que cabem na maioria dos ambientes, os ditos mais vendáveis, e outros que são obras mais elaboradas, belíssimas, mas tem maiores dificuldades de vendas, não pela qualidade, mas porque na maioria das vezes são obras que requerem um grande espaço ou um local determinado conforme o tema. E para os vendedores de telas isso não é interessante.
E neste contexto, muitas galerias se tornaram não um local de divulgação de artistas, e sim apenas uma loja decorativa, as cores das telas precisam com a pintura da parede, com o tapete ou o abajur, e assim vai.
Não estou dizendo com isso que não existam galerias sérias, ou pessoas bem intencionadas, existem sim, porém andam ficando escassas com a atual concorrência neste mercado.
O que quero dizer a meus queridos amigos artistas que encontram algumas destas dificuldades é o seguinte, Vincent Van Gogh nunca foi aceito em um salão de artes enquanto vivo, por ter um trabalho pouco compreendido para a época, ele vendeu em vida apenas uma obra.
A arte é essencialmente do artista, e quando tentamos mudar isso para uma arte para compradores, é quando nos perdemos, em conteúdo e qualidade.
Precisamos sobreviver neste mundo capitalista estou bem segura disso, mas não deixe a arte morrer para você, ainda que digam que o seu trabalho não é vendável, acredite o sentimento que imprime nele vai ficar para sempre na memória daqueles que possuem a sensibilidade de sentir naquela obra a alma do artista.