MINHA ESTANTE

Passei uma vida lendo e aprendendo com a literatura, meus pais sempre nos ensinaram que podíamos tudo dentro de nossa imaginação quando líamos um livro. Poderíamos ser fadas, rainha, iria a países distantes e seríamos sábios.
Um dia olhando as prateleiras de meu pai, vi o retrato de minha vida, em uma estante abafada e cheia de velhos livros, os mesmos que me levaram a todos os cantos do meu universo, agora cheiravam a mofo.
Porém dentro deles, ainda viviam os antigos valores que aprendi a respeitar, e que hoje admito ter perdido alguns ao longo da trajetória de minha história.
Lá estavam meio corroídos pelas traças, as minhas recordações de criança, as fábulas que me encantava as lendas por onde tantas vezes fui aquela princesa resgatada.
História de religiosos, mártires e de déspotas que me fizeram vislumbrar as desigualdades, continua viva nas prateleiras de madeira velha.
Pego os pincéis e com eles remendo os erros das antigas lendas, porque hoje sei que elas não passam dos sonhos de uma mente brilhante, que as fadas somente permanecerão vivas em minhas lembranças.
Traço as ruas da cidade onde por tantas vezes fiquei esperando o menino que passava em sua bicicleta, e com o cantinho do olho me espiava sentada em baixo do pé de Ipê amarelo com um livro nas mãos e a cabeça nas nuvens.
Lia “cinco semanas em um balão” de Julio Verne, e viajava com ele pela África, desde aquele dia até hoje tenho uma imensa vontade de voar em um balão, mas a coragem já não é a mesma que naqueles dias floridos de primavera.
Então meus pincéis me libertam do medo e me levam as alturas rompendo com qualquer pensamento de um adulto e me fazendo rir de prazer com o vento batendo em meu rosto, e com o firme propósito de descobrir a nascente do rio Nilo.
Mais amarelado do que rosado estava meu porquinho de economias, completamente vazio e bastante danificado, escondido entre os velhos manuscritos de minha avó que escreveu a mão todo um dicionário sobre a fauna e a flora brasileira, os grossos volumes de cadernos encapados com saquinhos plásticos de leite para que o tempo não destruísse.
Coloquei o guardião de meus sonhos de riqueza na minha estante, mas sei que meu pai não colocará mais moedinhas nele como fazia, e nem eu tenho mais sonhos de grandeza, meus valores se transformaram na simplicidade e singeleza que existiam naqueles bons tempos, e que se perderam na selva dos gananciosos.
Que encanto poder tecer toalhinhas de crochê iguais as que vovó fazia, com aquela perfeição de seus dedinhos brancos como a linha.
Deito os pincéis sobre a mesa e suja das cores de minhas lembranças, olho admirada o armário de meu pai, que guarda tesouros invioláveis.
Agora não passo de um espectador olhando a estante cheia das preciosidades de minha memória, satisfeita assino meu nome aos pés da fada verde que me acompanhou durante anos em minhas aventuras proibidas, que voava comigo no balão, e jogava pó mágico na hora de me acordar.
Um dia sentarei em frente a lareira acesa e com minhas agulhas de crochê correndo pelas mãos, contarei a meus netos todas as histórias que provavelmente eles não lerão, mas que guardo como uma jóia para que eles tenham a liberdade de sonhar com eu.