A ENVELHESCÊNCIA

Fã de Mario Prata que sou, certo dia li uma crônica dele cujo título era: “você é um envelhecente”?
Achei o máximo na época porque me sentia distante demais da tal envelhescencia.
Ele assim classificava o estágio entre a maturidade e a velhice, que seria dos 45 até os 60 anos, assim como a adolescência existe entre a infância e a maturidade.
Hoje já noto aqueles detalhes ao qual ele se referia, e acredito realmente que existem mudanças imensas no ser humano quando ele se encaminha para a velhice, que hoje eles gentilmente chamam de “melhor idade”, não sei para quem esta é a melhor idade.
Acho que intelectualmente é uma maravilha, pois alcançamos o ápice de nossos conhecimentos, e podemos ver nossos erros passados com clareza, aceita-los e etc., mas e daí não dá mais tempo de corrigir muita coisa, então o negócio é relaxar e aceitar.
Percebo a entrada na envelhescência quando começo a trabalhar pela manhã, há alguns anos atrás era tudo bastante simples, eu apenas pegava o material, e tudo ia surgindo diante dos meus olhos com naturalidade, hoje, tenho que primeiro rastrear o ateliê para encontrar todos os meus óculos que estão perdidos no meio daquela bagunça natural dos artistas. Sim pois, se antigamente usava um grauzinho apenas para leitura, hoje tenho vários óculos, um para cada função, de longe, de perto, para o computador, para dirigir, sem falar na lupa para pintar, e veja que com todo este aparato ótico, uma noite dessas acabei por dar uma chinelada em uma presilha de cabelo achando que fosse uma barata, mais do que claro, é um sinal de que caminho a passos largos para a velhice.
Sem falar é claro daquela agilidade maravilhosa que eu tinha há uns anos atrás, se estava pintando e algo estava distante, e sempre estava, era com uma facilidade inesquecível que eu me virava para apanhar o objeto, atualmente se fizer a mesma proeza provavelmente minha coluna dará um nó que levarei dias sentindo as pontadas, tenho que seguir o manual do envelhescente.
1º - Pensar no que quero pegar.
2º - Visualizar o objeto e calcular a distância e o grau de curvatura necessário, para alcançá-lo.
3º - Virar-me calmamente pensando nos músculos que necessitarei movimentar e finalmente apanha-lo.
Resumo da ópera, nesse processo todo já se passou uns quinze minutos, por isso acho que produzo tão menos do que antigamente, não é falta de criatividade, é falta de agilidade mesmo.
Mas com o que mais me divirto, é observar alguns de alguns amigos contemporâneos, o homem é claro chegando à envelhescencia, eles acabam por confundi-la com a adolescência, vivem de olho grande nas meninas novinhas, que hoje são as namoradas dos seus filhos, usam roupas ousadas, pintam os cabelos, comprarem uma moto grandona e freqüentam baladas.
Mas com todos estes percalços, ainda assim acho muito bom ser uma envelhescente, curtir meus netos, não ter medo de mencionar a idade, não sentir culpa algum ao dizer não a uma série de coisas, poder relaxar de verdade, sem ter a preocupação doentia de cuidar demasiadamente da imagem externa, podendo sim ter todo tempo do mundo para cuidar do meu interior, tomar posse verdadeiramente de quem eu sou, do que sou capaz e de minhas limitações. Aceitar que estar envelhecendo não é uma doença, mas uma dádiva, que é chegado o momento de ensinar aos outros tudo o que aprendi com meus erros.
Crônica de Mario Prata “Você é um envelhescente?”
http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/voce_e_um_envelhescente.htm