VENCEDORES E VENCIDOS

Pedro e Ana se conheceram em uma lanchonete, aonde ela trabalhava como auxiliar na cozinha, moça simples de modos comportados, desde menina já trabalhava para ajudar a suster a família.
Pedro um rapaz bonito e ambicioso, porém sem condições de realizar seus sonhos, trabalhava como pedreiro ajudando o pai, mestre de obras.
Da simplicidade de um encontro aos poucos nasceu o amor entre eles, lindo de se ver, e mesmo diante das dificuldades do dia a dia, casaram-se e juntos foram conquistar o mundo.
Pedro um sonhador, Ana uma batalhadora, eram uma dupla perfeita, ele planejava e ela executava as tarefas, mas existia uma sincronia perfeita. Ele um empreendedor por natureza, logo vislumbrou a possibilidade de crescerem trabalhando com alimentos, coisa que ela entendia e fazia como ninguém.
Deste modo, começou a jornada rumo ao sucesso.
Primeiro os salgadinhos que ela preparava até altas horas, e muito cedo com a barriga já crescida pela chegada do primeiro filho, fritava seus quitutes, que Pedro muito sabiamente dava a um grupo de pequenos meninos para vender, afinal ele era o administrador.
Com a habilidade de Ana e a esperteza de Pedro, em pouco tempo eles já tinham um carrinho de lanches na praça principal, e um segundo filho na fila de espera.
Em pouco mais de sete anos eles abrem sua primeira lanchonete, e dali para o primeiro restaurante foi um pulo.
Os negócios começam a crescer, Pedro nesta altura já terminando uma faculdade de administração de empresas, e Ana carregando já sua terceira criança no ventre, continua na cozinha a dar o sangue junto com suas maravilhosas receitas.
Um pouco antes do 15º aniversário de casamento, eles inauguram um restaurante fino na área nobre da cidade. Sucesso total, a casa que vive cheia, traz pessoas famosas e importantes, Pedro se sente realizado e pronto para expandir os negócios. Ana se sente cansada de ter que comandar uma grande equipe em sua moderna cozinha, que mesmo tendo um renomado chefe no comando, ainda passa por seu crivo.
Ele vai ficando mais maduro e mais elegante, usa roupas caras e relógio de ouro, anda de carro importado e tem muitos compromissos.
Ela já quase não vê os quatro filhos crescerem dentro deste turbilhão, os meninos estão estudando em boas escolas, e freqüentando bons ambientes, mas ela se sente envelhecida com a pele queimada e enrugada pelos anos em frente à quentura dos fogões.
Já quase não se encontram, um se deita quando o outro se levanta.
Mas conseguiram o sucesso tão sonhado, venceram.
Pedro se sente um vencedor, mas tem vergonha de sua companheira, e aos poucos acaba se envolvendo com outras mulheres mais jovens e mais interessantes que a sua.
Ana nunca teve tempo de aproveitar os frutos de seu suor, que foi a alma do sucesso.
E eu pergunto? Quem é o vencedor e quem é o vencido?
Aquele brilho nos olhos dela desaparece com os primeiros telefonemas anônimos, e toda a sua energia foi-se como por encanto.
Ela se entrega ao desânimo e a lamentação, sente saudades dos tempos que juntos dividiam um prato de comida.
Ele ganhou fama e riqueza, mas perdeu a essência, passou a ser apenas mais um homem bem sucedido e não percebe que deixou passar o tempo mais precioso de sua vida, correndo atrás das ambições.
Ninguém vence um jogo se não souber as regras.
Muitas vezes o que acreditamos ser sucesso, se torna nossa derrota.
Quantos de nós dedicamos toda uma vida buscando projeção, e esquecemos das coisinhas mais simples que estavam tão perto.
Quantos erros se cometem até descobrir que os verdadeiros vencedores, são aqueles que jamais se sentem vencidos.
Os que se contentam com a simplicidade de um gesto de carinho toda manhã, aqueles que conseguem ver o mesmo brilho nos olhos do companheiro, mesmo o tempo já tendo levado toda a juventude embora.
Quem venceu?